Por Luiza Oliveira
As integrantes das torcidas organizadas mais conhecidas do Corinthians ainda sofrem com o conservadorismo e machismo de seus integrantes. Proibidas de participar integralmente de todas as funções existentes nesses grupos, muitas já desistiram de enfrentar os homens reivindicando igualdade de direitos. Ainda há casos em que mulheres são punidas, porque não agiram de acordo com as regras criadas por eles. Adla Ganam, atuante na organizada Gaviões da Fiel, confessou que os homens alegam tomar essas atitudes para preservá-las.
– Hoje em dia não faço nem questão mais de saber, mas uns 15 anos atrás quando ainda tinha saco para perguntar, a resposta era clássica para viagens: “estamos protegendo vocês”. Para o resto é só que não somos homens e por isso não temos direitos – afirma.

A também torcedora do Corinthians Isa Rossi está há 20 anos na organizada Pavilhão 9 e já se conformou com essas limitações impostas às mulheres. Hoje, ela entra em uma roda de conversa composta apenas por homens e expõe suas ideias, mesmo desconfiando que suas opiniões não tenham valor para seus ouvintes. O machismo ainda a incomoda, mas não vê perspectiva de mudanças.
– Esse machismo está na fundação, na base, e pelo que vejo, nada mudou. Só muda para pior. Se eu quero que mude? Sim, eu quero, mas hoje está bom pra mim. Faço o que eu gosto. Só não balanço minha bandeira, mas assisto meu jogo, falo o que eu penso e dou uma força nos eventos. Seria melhor se tivéssemos voz ativa? Sim. Mas são poucas as mulheres que se interessam também – revelou Isa.
Os paulistas amantes do Corinthians não permitem que as mulheres participem integralmente de todas as atividades. Elas são proibidas de tremular bandeiras, tocar na bateria e participar de algumas caravanas para jogos fora do estado de São Paulo.
– Como Gavião, para mim, acho normal mulheres em torcida organizada, desde que saibam se colocar no seu devido lugar e não quererem se meter em assuntos de homem que são: tocar surdo, mexer em bandeira e querer ir aos jogos considerados de guerra fora do estado. De resto, tudo normal – declarou Moacir Rodrigues, diretor da Gaviões da Fiel e líder do setor Zona Leste dentro dessa mesma torcida.
Um dos princípios adotados por essas torcidas é punir as mulheres que quebrarem as normas decretadas por eles. O simples fato de uma mulher tocar em um instrumento ou na bandeira da torcida organizada da qual faz parte, já está sujeita a sofrer uma penalidade. Uma das punições impostas é o boicote. Por um determinado tempo, as pessoas envolvidas na organizada deixam de vender roupas do time para elas e dizem que não há vagas em caravanas que ainda tem lugar sobrando.
– Ser mulher em torcida organizada é aquilo: você tem que provar o tempo todo que pode ser tão boa quanto os caras, sendo duas vezes melhor que eles. É você ter a vivência em um espaço masculino, e ao mesmo tempo ir conquistando seu espaço. Há posições que dificilmente são conquistadas por mulheres, para não dizer impossível. É sempre uma pressão muito grande – desabafou Luane Guarnieri, integrante da organizada Camisa 12 do Corinthians.
Torcidas na direção oposta
Atuando no sentido contrário aos grupos corinthianos dentro dos estádios, na Torcida Jovem do Santos, as mulheres podem bandeirar e tocar na bateria sem restrições. Foi criado um departamento feminino dentro da organização e agora elas lutam para conseguir sua própria bandeira.
Outra torcida organizada aberta para a participação feminina, até mais que a santista, é a são paulina Dragões da Real.
– Sinto muito orgulho em fazer parte da Dragões da Real. É uma torcida que dá muito valor a nós mulheres e permite que tenhamos o nosso espaço – declarou Andressa Pacheco, torcedora do São Paulo.

Caio Henrique de Oliveira, também integrante da Dragões da Real, vê de forma positiva a presença das mulheres nos estádios.
– Eu acho incrível, e se tratando da Dragões, elas têm um papel muito importante pelo fato de não apenas estarem na arquibancada, mas também participarem. Elas cantam o tempo todo, muitas vezes mais que os homens. Eu tenho 10 anos na torcida e elas sempre foram bem aceitas. Desde que entrei, sempre teve bonde feminino direcionado e comandado por elas – afirmou.