Por Núbia Trajano
Há um contraste entre o número de mulheres que dizem já ter sofrido algum constrangimento nos estádios, comparado as que fazem a denúncia oficialmente. O promotor do Estatuto do Torcedor, Rodrigo Terra, afirmou que, em princípio, é mais complexo identificar apenas no gênero a causa do assédio que se dê em ambiente de torcida.
Segundo o juiz Rafael Estrela, atuante no juizado especial dos estádios, do Estado do Rio, existe apenas um registro feito por uma mulher em relação ao caso de assédio. Mas esse número não condiz com os casos mencionados na internet.
Dados e informações
De acordo com a pesquisa “A voz das redes”, do Instituto Avon em parceria com a Folks Netnográfica, a pessoa que sofre violência é quem menos fala nas redes. Quem pauta esta discussão na internet, segundo a pesquisa, são mulheres brancas (66%), entre 18 e 24 anos (73%), de classe B e C (67%), enquanto as vítimas que relatam nas redes episódios de assédio e violência são em sua maioria mulheres negras (80%), de 25 a 44 anos (73%) e de classe C e D (77%).
O assessor do juizado do Torcedor e dos Grandes Eventos, Reginaldo Pestana, acrescentou detalhes ao único caso registrado de assédio em estádio. Ao final da entrevista, Pestana indagou um questionamento de porque não fazerem a denúncia.
– A eventualidade aconteceu no Estádio Olímpico Nilton Santos, popularmente conhecido como Engenhão. Uma sargenta, em serviço, flagrou um torcedor filmando a parte de trás do corpo dela. O indivíduo resistiu em entregar o celular e o caso foi conduzido para o juizado do próprio estádio. Em primeira análise, a promotora presente concluiu como desacato, e encaminhou para o tribunal. O desfecho foi concluído no próprio tribunal do estádio.
Para o promotor Rodrigo Terra, o crime, pela sua própria natureza, precisa ser praticado às escondidas, tendo em geral, um número reduzido de meios para provar. Isso explica em certa medida por que as mulheres se desencorajam a denunciar o assédio:
– Entre a palavra delas e a do agressor, nem sempre lhe darão crédito. A situação no estádio é ainda mais delicada para a vítima de assédio, pois há pelo menos um motivo a mais para desacreditar a versão da vítima e este é o de que o assédio se deu por clubismo.

Relato Pessoal
A jornalista e autora do blog “Fala Torcedora!” Monique Torquetti, 26 anos, torcedora do XV de Piracicaba, relatou qual a situação mais constrangedora que sofreu no Estádio Doutor Novelli Junior:
– A pior coisa que passei em um estádio de futebol foi no Estádio Doutor Novelli Junior, em Itu, 2011. Eu era uma das poucas mulheres na arquibancada visitante e tive que escutar da torcida local cantoria com o meu nome, de formas horríveis que me constrangeram. Nunca descobri quem começou cantando e porque, já que eu nunca tinha dado liberdade para nada.
O PM do Batalhão Especializado de Policiamento em Estádios, Tenente Sílvio Luiz, contou como eles precisam agir em caso de assédio. Existe uma estrutura no próprio estádio, o juizado do torcedor. Nele possui a delegacia, e, ali mesmo, o defensor público e o promotor:
– O procedimento é o mesmo em qualquer lugar. Houve uma denúncia de assédio, imediatamente todas as partes serão conduzidas para a delegacia que funciona dentro do estádio. Em caso de assédio, ambas as partes vão ser conduzidas para a apreciação do delegado, do promotor, e do juiz de plantão naquele dia escalado no jogo. A ocorrência inicia e termina com o parecer do juiz dentro do estádio.
O que precisa ser feito
O Tenente informou que no caso de uma ocorrência de assédio em uma mulher, é preciso que uma policial mulher seja acionada, mesmo que não esteja no local da denúncia. Ainda acrescentou a média de policiais mulheres, comparado aos homens, para cada jogo de futebol.
– O BEPE tem o efetivo em torno de 250 policiais, sendo 22 apenas o número de policiais militares femininas. Nos jogos de grande apelo, trabalho com efetivo de apoio, e chego a receber ajuda de 500 policiais homens. O apoio vem de diversas unidades diferentes, com escalas de serviço diferentes.