Futebol feminino quer aproveitar momento único para se consolidar no Brasil

Por Fernanda Teixeira e Pedro Bueno

Ex-capitã da Seleção Brasileira e medalhista de prata nos Jogos Olímpicos de Atenas 2004, Aline Pellegrino disse que o futebol feminino brasileiro vive um momento único. Em 2019, o esporte vai estar sujeito às novas regras da Conmebol e CBF, que determinam que todos os clubes devem ter um time de mulheres para a disputa das competições sul-americanas e Campeonato Brasileiro pelos homens. As mudanças coincidem com o ano de Copa do Mundo e por isso, Aline se considera otimista e acredita que o futebol feminino vai se consolidar de vez no país.

Apesar dos avanços, ainda há um longo caminho a ser percorrido até a profissionalização da modalidade. No Brasil, dos 20 clubes da Série A, apenas sete já tinham projetos consolidados. Os demais formaram quadros este ano, muitos às pressas e todos sem a obrigação de assinar contratos profissionais com as atletas.

– O licenciamento de clubes vem corroborar e ajudar esse momento. Isso não quer dizer que sem ele não estávamos nos desenvolvendo. Estávamos, mas de forma um pouco mais lenta. Ações afirmativas, como estas, ajudam muito. Temos uma primeira e uma segunda divisão, a segunda com 36 clubes, estaduais em São Paulo, que este ano voltou a ter os quatro grandes (Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo) e um campeonato de base nacional, o que antes não existia. Faz uma diferença gigante para o desenvolvimento da modalidade em um ano de Copa do Mundo – disse Aline.

Aline acredita em momento único para o esporte (Foto: Greg Baker/AP)

Atual coordenadora do Departamento de Futebol Feminino da Federação Paulista de Futebol (FPF), Aline reconhece que muitos clubes não se planejaram para o momento, mas vê as novas regras como um impulso para a evolução dos times femininos brasileiros.

– As mudanças estão acontecendo. Obviamente, alguns clubes, que até então não vinham trabalhando com futebol feminino, estão perdidos, não imaginavam que a coisa está muito mais avançada do que eles pensavam. O clube que não se preocupou muito em montar um time e nem com a parte técnica vai passar a se preocupar e, no ano que vem, buscar melhorar. Não vejo nada de negativo. São novos clubes e meninas com oportunidade de praticar. Ano que vem, já vamos ver uma evolução técnica gigante nas séries A1 e A2.

Opiniões divididas

A visão otimista de Aline não é unanimidade entre os profissionais da área. A treinadora da Ponte Preta, Doroteia Inojo, acredita que os clubes estão apenas cumprindo protocolo, sem qualquer preocupação com o avanço da modalidade. Doroteia tem uma história de 23 anos no futebol feminino. Na companhia do marido Chicão, também treinador, ela decidiu montar a equipe feminina do Rio Preto (SP) para que as três filhas – Milene, Sharlene e Darlene – pudessem jogar futebol, em 1996. Apesar da longa trajetória, ela revelou que já pensou muitas vezes em largar o esporte.

– Minha opinião sobre as novas regras da Conmebol e da CBF é que são apenas uma obrigação, sem as diretrizes corretas. Já pensei em abandonar o futebol porque em todos esses anos pouca coisa evoluiu. Você batalha, batalha e, no final, os times de camisa são privilegiados e não quem trabalha realmente pelo futebol feminino.

Para Doroteia, ainda falta apoio financeiro para que o esporte abandone o nível amador. O desafio é encontrar empresas privadas que deem suporte para os times femininos, inclusive para a seleção brasileira. Outro ponto de crítica da treinadora da Ponte Preta é a ausência da mídia na cobertura de eventos que envolvam a modalidade.

– Dificilmente, você encontra uma empresa que acredite e confie no potencial do futebol feminino. No final do Campeonato Paulista Feminino de 2017, fiz o jogo na Vila Belmiro. Tinham 12 mil torcedores acompanhando o jogo, mas e a mídia? Acho que falta esse suporte da imprensa, em geral.

O difícil cenário do futebol feminino no Brasil se reflete nas histórias de vida das jogadoras que disputam o Brasileirão. Além do preconceito que as atletas enfrentam, é comum encontrar relatos de superação até nos grandes clubes. A atacante do Flamengo/Marinha Flávia Giovanna é um exemplo. Hoje, ela é um dos destaques do Rubro-Negro na temporada, com seis gols em seis jogos, mas para chegar nessa posição, ela precisou driblar o avô militar e catar ferro-velho nas ruas de Volta Redonda para ir treinar.

– Toda vez que ia para a quadra jogar, meu avô ia lá me buscar, mas isso não me atrapalhou em nada. Sempre corri atrás sozinha. As pessoas que me viram catando ferro-velho na rua passam por mim e falam o quão guerreira eu sou, por estar onde estou. Eu falo com elas no dia a dia e tenho eterna gratidão por todas, por terem me dado um pedacinho de alguma coisa que me fez estar aqui hoje – disse Flávia.

Flávia Giovanna chegou a catar ferro-velho para ir treinar (Foto: Yasmin Lisboa)

A jogadora de 25 anos iniciou sua trajetória nos gramados incentivada pela tia ex-goleira do Volta Redonda, que a levou para um teste ainda adolescente. Hoje, ela sonha com a Seleção Brasileira e vê as novas regras com bons olhos, mas pondera que ainda há muito o que evoluir, em especial na diferença salarial entre homens e mulheres no esporte.

– Já é um começo. Pelo menos todos os clubes já têm a obrigação de ter times femininos. Não é o salário que as equipes masculinas ganham, mas já é um salário que dá para manter um padrão como alugar uma casa, se alimentar bem e pagar um nutricionista. Antigamente, o dinheiro que uma jogadora ganhava não dava nem para ir na esquina e voltar.

Exemplo que vem do vizinho

Na Argentina, houve avanços concretos na profissionalização do futebol feminino. Hoje, todos os clubes do país têm a obrigação de ter, pelo menos, oito contratos profissionais nos seus elencos. As condições econômicas do futebol feminino passaram a equivaler à dos atletas da Série C do futebol masculino. A ex-jogadora da seleção argentina e fundadora do coletivo La Nuestra Fútbol Femenino, Monica Santino, revela sua alegria com o novo cenário do esporte no país.

– O ambiente atual é de otimismo, o que há alguns meses era impensável. Estamos muito felizes que uma menina que deseje ser jogadora de futebol possa começar a pensar como jogadora. O profissionalismo não é só o salário. Tem a ver com o desenvolvimento do esporte como um todo, em especial, para nós que fomos as pioneiras e jogamos um mundial não profissional da Fifa em 1971 e resgatamos essa história há pouco tempo.

O início da profissionalização veio do caso Macarena Sánchez. A atleta de 27 anos atuava pela equipe da Universidade UAI Urquiza, sob um contrato que determinava que as jogadoras deveriam estudar na universidade ou ter um trabalho além do futebol. Na prática, entretanto, as atletas eram exigidas em tempo integral pelos treinos e jogos. Depois de denunciar a situação nas redes sociais, Macarena foi afastada do elenco e comunicada que não fazia mais parte da equipe por razões esportivas, o que não era verdade. A partir daí, ela deu entrada em ações judiciais contra o clube e a Associação Argentina de Futebol (AFA.). O caso ganhou visibilidade nos meios de comunicação locais e internacionais e se tornou o símbolo do início da profissionalização do futebol feminino na Argentina.

Macarena assinou o primeiro contrato profissional em abril (Foto: Agência Telám)

– O caso Macarena se deu em um momento particular do movimento de mulheres na Argentina. Tudo o que ela fez teve o respaldo e o apoio de um grupo grande de mulheres, que vêm lutando pelo esporte há muito tempo. Fui jogadora de futebol, atuei nos anos 90, mas se naquela época eu ou outra atleta tentássemos fazer o mesmo que a Macarena fez, nós iriamos ser facilmente caladas.

Depois das mudanças implementadas pela AFA, Macarena assinou, em abril, o primeiro contrato como jogadora profissional. Ela agora é atleta do San Lorenzo de Almagro, clube importante da primeira divisão argentina.

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