Grupo de meninas luta para jogar em comunidade de Niterói

Por Raylla Aquino

Da dificuldade de se sobrepor à intransigência dos meninos, surgiu o nome do time: “Gladiadoras do Gramado”. São 43 mulheres, entre 11 e 28 anos, que quatro vezes por semana jogam futebol no campinho da comunidade de Cantagalo, na Região Oceânica de Niterói. Mas a rotina de peladas só foi possível quando elas conquistaram o espaço a fim de se reunirem e treinar para competir em campeonatos, após tentativas de conciliar com os outros jogadores que frequentam o espaço do campo comunitário.

O grupo das meninas tem um perfil majoritariamente estudantil. Soraia Sousa, de 24 anos, estudante de Educação Física e técnica do time, afirmou que a maioria delas tem 17 anos e que, além das jovens da própria comunidade, meninas de outras áreas próximas também fazem parte do grupo. Soraia explicou, também, o nome do time, que se refere às lutas das meninas para jogar no gramado da comunidade do Cantagalo.

– Como elas são guerreiras, a expressão foi escolhida pelas meninas para representar a luta para poder jogar futebol, porque era muito difícil. Eu via a briga delas para jogar e, apesar de não ter dono, eles acham que podem mandar no gramado da comunidade. Tenho que falar com o responsável que cuida do campo. E só tive o prazer de escolher o escudo, que é parecido com o do flamengo – contou Soraia.

Escudo do time das Gladiadoras do Gramado feito pela técnica Soraia Sousa.
Crédito: Soraia Sousa.

A estudante contou como a sua relação com o time de futebol feminino a ajudou a superar uma fase que ela enfrentou durante a formação e início dos treinos do time no campo comunitário do Cantagalo.

– Quando eu me machuquei com o joelho, após um acidente, eu entrei em depressão e abandonei tudo. O futebol era a minha vida. E o time me ajudou muito nisso. O time me levantou. Eu gosto de futebol e quero estar presente, mesmo que em fora de campo – revelou a técnica do time. 

Para Soraia o time representa um projeto social para manter as meninas da comunidade na ativa. A técnica comentou que todas são engajadas no futebol. Segundo ela, há dois anos, no início da formação do time, o grupo enfrentou algumas dificuldades para jogar no campinho comunitário do Cantagalo. 

– Nunca tinha tempo para as meninas jogarem, até porque, os garotos sempre estavam jogando no campinho da comunidade. Por conta de uma lesão, eu não jogava, apenas ficava olhando. A partir daí, eu acabava comprando a briga delas com eles. Falei com o responsável do campo e pedi um horário para gente jogar, no caso rachar. Aí nesse ‘racha’, começamos a levar a sério. Mas a dificuldade foi bem grande em relação a treino, no início, por causa do campo. Mas acabou que deu certo – comentou a técnica.

Joyce Teodoro Salermo, de 23 anos, é uma das gladiadoras do gramado e participa desde o começo do time. O gosto pelo futebol veio desde a infância. Segundo Joyce, foi por meio da brincadeira de um racha, onde foram se juntando meninas para jogar bola, que o time foi formado. Ela comentou também a importância dos campeonatos para a formação do time.

– Sempre que a verba dá, a gente vai participando dos campeonatos. A cada um, o nosso time vai crescendo mais. É bom para termos experiências no futebol. Quando surge a oportunidade, nós participamos. Tentamos participar de um por mês, onde é o tempo em que dura um campeonato inteiro – explicou Joyce.

Assim como Soraia, a flamenguista Joyce vê o esporte como uma ferramenta de educação para o desenvolvimento das jogadoras. E enquanto Soraia pretende estar nos bastidores, trabalhando como professora de crianças, a Joyce encontra, no futebol, os meios de perpetuar o gosto pelo esporte.

– Jogar futebol, vou jogar minha vida toda. Só não quero nada mais profissional. Mas enquanto eu puder, vou estar jogando e treinando – afirmou Joyce.

Além do campinho, as meninas treinam na praia do bairro de Icaraí e até mesmo na quadra da ONG FENASE, a qual recebem doações para ajudar o time. Como o time feminino da ONG não era valorizado, uma jogadora que foi treinar com as gladiadoras do gramado, cuja mãe trabalha na FENASE, indicou a Soraia para ser voluntária nos jogos femininos que a organização oferece.

– O pessoal da ONG fornece uma quadra coberta e com vestuário para a gente treinar. Além disso, eles doam pares de chuteiras e benefícios como atendimento psicológico para as meninas. E lá tinha um time feminino, mas o técnico só dava treino para os meninos e deixavam as jogadoras de lado por serem meninas. E, a partir da indicação de uma das jogadoras, a responsável da ONG me chamou para ajudá-las – explicou a técnica das gladiadoras.

Parte do time posam antes do treino. À direita, de casaco cinza, a técnica das gladiadoras, Soraia Sousa. Créditos: Soraia Sousa.

Soraia disse que o cenário para as meninas jogarem futebol nas quadras em comunidade ainda se encontra em construção e para elas conseguirem organizar suas ‘peladas’ de jogo foi uma experiência difícil.

  – Para homem, a pelada tem um horário: para os mais velhos é a noite. Para os adolescentes, à tarde. Eles têm disponibilidade a todo o momento. Porque, para ter pelada de homens, basta ter quatro meninos e já consegue ter. Agora, para as meninas, a gente tem que achar um tempo livre para poder ter essa pelada entre a gente, além de termos que juntar uma boa quantidade de meninas. Atualmente, está tendo mais, porque antigamente eram as meninas misturadas com os meninos – comentou Soraia.

Perguntada sobre a conjuntura do futebol feminino dentro das comunidades, Joyce vê uma perspectiva positiva em relação à participação e à contínua inserção feminina nos jogos de comunidade. E segundo a jogadora, o time ainda não tem capacidade de competir de igual para igual com as equipes da Taça das Favelas. Mas a intenção das gladiadoras é participar de grandes campeonatos em pouco tempo.

– Hoje está crescendo bastante o futebol feminino nas comunidades. Nós participamos de campeonatos e torneios femininos. E está aparecendo bastante meninas para jogar. Antes não tinha muitas, mas agora sim, tem. Todos os domingos – disse a jogadora.

As mulheres na várzea

De acordo com Mario Love, coordenador de esportes da Central Única das Favelas (CUFA), a participação feminina nas partidas de futebol apresenta uma conjuntura excelente no decorrer dos anos das edições. O intuito, segundo Mario, de cada edição é fazer tornar a participação feminina como personagem principal dos jogos.

– A Central Única das Favelas (CUFA), organizadora da Taça das Favelas, sempre fez questão de valorizar o espaço e o protagonismo da mulher em todas as áreas, não só no futebol. E em 2019, mais uma vez o torneio feminino está sendo um sucesso. Muita garra, muitos gols, muitos jogos disputados e lindas jogadas – afirmou Love.   

Mário Love disse, também, que a equipe da Taça das Favelas, com 24 times femininos em 2019, pretende aumentar o número das favelas na categoria feminina de jogadores a partir de 15 anos, sem limite máximo de idade.

  – No começo, era difícil para elas, que muitas vezes tinham que jogar as “peladas” com os meninos, mas conforme a Taça das Favelas foi se consolidando no calendário esportivo carioca e brasileiro, sempre garantindo o espaço das meninas, o futebol feminino foi ganhando muito espaço nas favelas e comunidades do Rio e do Brasil. Hoje elas conseguem organizar suas “peladas”, treinos, amistosos e jogos de campeonato – comentou o coordenador.

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