Torcidas organizadas femininas ajudam mulheres a encontrar independência

Por Pedro Montenegro

A universitária Janaina Pinto encontrou nas arquibancadas uma saída para anos de um relacionamento de dependência financeira e emocional. Vice-presidente da Força Feminina Colorada (Internacional), Janaina vê na torcida feminina um local de acolhimento para mulheres.

— Venho conquistando independência e amor próprio desde que me juntei às meninas. Foi assim que voltei a sair de casa depois de anos em um relacionamento de dependência. Nós torcedoras mantemos contato e ajuda permanente a mulheres vítimas de violência doméstica. Com a torcida, eu pratico o feminismo que antes conhecia tão bem só na teoria.

Janaína é sócia desde 2017 da primeira torcida organizada feminina do Rio Grande do Sul, criada em 2009. De acordo com ela, o preconceito contra mulheres em estádios parte do torcedor que não tem costume de frequentar o local.

— Nosso espaço é sempre questionado, o que não acontece com as outras torcidas formadas por homens. O torcedor ocasional é quem reclama da gente, aquele que só vai nos bons momentos do time. Reclamam dos lugares que ocupamos, de assistirmos o jogo em pé, das nossas bandeiras, da banda. Se não nos calamos, eles tentam se impor. Somos xingadas de coisas absurdas e intimidadas fisicamente.

A banda da Força Feminina Colorada completa três anos em 2019 e realiza o projeto social ‘Tocando para o Futuro’. De acordo com Janaina, a idéia era, além de torcer, ajudar jovens da periferia de Porto Alegre.

— Queríamos ensinar eles a tocar instrumentos, na esperança de que isso os fizesse seguir na música como hobbie ou profissão. No início, a banda era composta só de mulheres, mas a coisa foi tomando volume. Temos alguns homens que fazem parte do projeto como músicos contratados porque, no início, não tínhamos mulheres tocando instrumentos de sopro. Eu comecei a tocar trombone junto de uma colega torcedora porque estávamos no limite de vagas preenchidas por homens. Agora já temos até algumas músicas próprias e outras no processo de conclusão. A banda é nosso xodó.

Presidente da AvaíXonadas, Arleni Lapa explica que muitos torcedores preferem ir aos jogos fora do Estado com a caravana da torcida feminina por ela ser mais organizadas que as demais.

— A maioria dos passageiros é de mulheres, os homens que participam são considerados apoiadores. Eles são maridos, noivos, namorados, netos e filhos das avaíxonadas. A nossa caravana é bem organizada, sempre pedimos escolta policial e ficamos longe de confusões. Por conta disso, muitas pessoas que não fazem parte da torcida pedem pra ir com a gente.

Arleni diz que a torcida sofria com preconceito e machismo quando se juntou, em 2015, mas essa realidade tem mudado com o passar do tempo.

— No início, os outros torcedores falavam pra gente ir lavar roupa, pilotar fogão, etc. Diziam que éramos “modinha”, que a torcida não ia vingar. Nós continuamos presente nos estádios e, hoje, eles nos ajudam a fixar faixas e até a tremular a bandeira. Nós conquistamos nosso espaço e o respeito da nossa própria torcida.     

A presidente da Flu Mulher, Kaká Soares, conta que a torcida nunca foi hostilizada no Rio de Janeiro, mas que os problemas se acumulam com torcidas em outros Estados e até com policiais nas partidas.

— Quando fomos em caravana para fora do Rio, tivemos muitos problema. Fomos emboscadas pela torcida do Corinthians em Barueri, São Paulo, e foi complicado para chegarmos no nosso ônibus. O jogo do Fluminense não era nem com o Corinthians, era a partida com o Palmeiras que decidiu o título do Campeonato Brasileiro de 2010. Os policiais jogaram bombas e gás de pimenta sem se importar com a gente. Éramos uma torcida só de mulheres. Não estávamos brigando com ninguém, mas os policiais nos colocaram no mesmo bolo e nos trataram igual aos torcedores bandidos.

Kaká diz que participou da criação da primeira torcida organizada exclusivamente feminina do mundo, a Flu Mulher, criada em 2006. Segundo a torcedora, a ideia surgiu com o objetivo de gerar mais segurança às mulheres que queriam ir ao estádio.

— Tudo começou comigo e mais cinco colegas. Nós queríamos acabar com a violência e o preconceito contra a mulher na torcida de futebol. Hoje, temos um cadastro de três mil apoiadoras no site da Flu Mulher e 150 associadas. Logo de início, a ideia foi muito bem recebida pela diretoria do Fluminense, que se orgulhou de ter uma torcida pioneira no segmento.

Cerca de 350 mulheres de 11 Estados brasileiros fizeram o 1° Encontro de Mulheres de Arquibancada em 2017, no Museu do Futebol, São Paulo. A reunião discutiu o espaço feminino nas torcidas e possíveis ações contra o machismo no meio. Com o passar do tempo, as torcedoras vêm deixando cada vez mais claro que lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive em estádios de futebol.

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