
Por Lara Lacerda e Tatiana Barbosa
Wagner Victer, ex-secretário estadual de Educação do governo de Luiz Fernando Pezão, afirmou que a discriminação e a desvalorização da prática do futebol por mulheres são um preconceito que vêm desde a base da formação das crianças. Segundo ele, a segregação do esporte pelo gênero é uma questão cultural que perpassa inicialmente o próprio lar e reflete diretamente no ensino nas escolas. O professor de educação física Rafael Souza reitera que apesar de não existir limitação oficial da prática do futebol feminino nos colégios, ainda há uma divisão por tipos de esportes, como o queimado para as meninas e o futebol para os menino, mas que isso tem mudado com o surgimento de novas práticas para oportunizar o público feminino.
O ex-secretário de Educação Wagner Victer destacou o papel dos pais na construção desse preconceito, quando presenteiam o menino com uma bola e a menina com uma boneca ou uma cozinha. De acordo com Victer, a falta de incentivo a prática do esporte por parte dos pais e professores, que ainda mantém uma formação antiga de educação, reforça mais as dificuldades de inclusão das meninas no futebol.
– São raros os pais que dão uma bola a uma menina aos dois ou três anos de idade. Não adianta pensar que esse pensamento também não perpassa os ensinamentos em casa. Não que esteja errado, mas eu acho que as pessoas são criadas nessa cultura equivocada. Por exemplo, eu morei alguns anos nos Estados Unidos e é muito natural ver meninas pequenas jogando futebol com os meninos ou até mesmo, com um grupo de meninas. Isso também é bem comum na Noruega. E é curioso porque são países que não são tão desenvolvidos no futebol masculino. Porém, no esporte feminino eles vão muito à frente de outros países com a tradição do futebol, como o Brasil e a Argentina.
Formado pela UFRJ e UERJ em Engenharia, Wagner Victer reconhece mudanças lentas no pensamento dos professores, que apresentam métodos inovadores para fomentar a atividade do futebol feminino. Ele acredita que as novas práticas como mudanças de regra durante o jogo são positivas, no que diz respeito à integração dos jovens e à criação de oportunidades. Victer, também ex-presidente da Fundação de Apoio à Escola Técnica (FAETEC), ressaltou a importância de referências como as jogadoras Marta e Cristiane para estimular a participação das meninas.
– É claro que há uma mudança de conceito, que é progressiva. Um paradigma até em função de novas referências que a gente teve no futebol feminino. Não há problema nenhum dar uma aula de futebol de salão com meninos e meninas. Possivelmente, as meninas não vão ser tão competitivas quanto os meninos, não só por conta da questão da compreensão física, mas também porque não praticaram anteriormente. Vejo esses pequenos recursos uma maneira saudável de introduzir as meninas.
Novas práticas de inclusão
O professor de educação física Rafael Souza é um desses profissionais que tentam aplicar métodos de ensino para oportunizar as meninas nas aulas. Ele defende a ideia de criar “subterfúgios” para que não haja tratamento diferente dentro do esporte: “para valer o gol as meninas tem que tocar na bola”, ou, “se um menino fizer falta em uma menina, ele fica cinco minutos fora do jogo”. Rafael, que também é preparador físico do Fluminense, afirma que cada um tem sua própria metodologia e que tem observado seus colegas incentivarem práticas similares nas escolas.
– Quando trabalhamos uma metodologia analítica em uma turma mista, é possível colocar meninas e meninos juntos que não há problema nenhum. Todos vão estar conduzindo a bola, dando passe, finalizando. Agora, quando colocamos o jogo, evidentemente é preciso dividir meninas e meninos para que elas consigam participar. Com essas regrinhas, a gente também pretende conscientizar os meninos para deixá-las jogar com naturalidade, fomentar o que elas tem de bom. Porque querendo ou não querendo, por mais que a gente tenha meninas muito espertas, às vezes tenho um pouquinho de receio de um contato, de se machucarem.
De acordo com ele, algumas meninas ainda têm uma certa rejeição a prática do futebol nas aulas, devido a um receio de serem avaliadas a partir do seu desempenho no esporte. Rafael procura ressaltar para seus alunos a importância da participação e da integração entre meninos e meninas para tornar o processo inclusivo para todos.
– Uma forma de começar a minimizar isso é você oportunizar as pessoas. Se as meninas gostam de jogar futsal, por que não podem jogar? Na educação física escolar, existe a ideia errônea, que é um absurdo e eu luto muito contra, que o menino joga futebol e a menina joga queimado ou handebol. Você não insere a menina no futsal. E às vezes, você não deixa nem a menina optar e opinar sobre o que ela quer fazer. Mas tudo também depende da sua estrutura. Quando você tem uma estrutura muito boa para trabalhar, você consegue fomentar isso um pouquinho melhor. Mas eu acho que você tem que oportunizar todo mundo igual, a gente já vive numa sociedade muito preconceituosa.
Segundo Rafael, ainda que não haja o incentivo ideal para a prática do esporte por mulheres, o quadro teve uma melhoria significativa desde a sua formação 15 anos atrás. Ele acredita que é um “novo campo que se abre”, tanto para meninas que sonham em seguir uma carreira, quanto para profissionais poderem trabalhar com o futebol feminino, como treinadores, preparadores físicos e terapeutas. A nova lei da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que exige a manutenção de um time feminino em todas as equipes da Série A, é um exemplo desse salto para reduzir o “hiato entre o futebol masculino e feminino”.
Coordenador da Vila Olímpica da Ilha do Governador por um ano e oito meses, Rafael trabalha com projetos sociais relacionados a esporte há 15 anos. Na Vila Olímpica foram criadas turmas de futebol e futsal apenas para meninas devido a uma grande demanda, com uma faixa etária que variava entre meninas de 12 a 17 anos. O professor busca ser inclusivo em seus treinamentos mesmo que exista uma grande diferença quantitativa entre meninos e meninas.
– As vezes temos uma turma com 20 meninos e 2 meninas, e como o projeto é inclusivo você não pode excluir as meninas. As meninas querem participar, você tem que deixar elas participarem. E às vezes você vê meninas com muito talento, com muita qualidade, que se sobressaem até sobre os meninos. A turma totalmente feminina era bem bacana. Elas se dedicavam, não faltavam. Gostavam para caramba de treinar. Elas participavam de competições e amistosos fora, ou contra escolas ou contra outras vilas olímpicas também. Minha experiência com esses projetos sociais me incentivou ainda mais em fomentar a inclusão das meninas nas aulas de educação física. Até porque, a Educação física é um processo inclusivo.

A estudante do curso de ciências contábeis da Universidade Veiga de Almeida, Ana Luiza Benicá, sempre gostou de jogar futebol e tinha o costume de praticar o esporte em casa e no colégio. Seu pai sempre foi um grande apoiador e tinha o sonho de que sua filha se tornasse jogadora profissional, o que não foi possível devido a rotina árdua de estudos que ela tinha. Ana Luiza cursou o ensino médio no CAp-UERJ, colégio que adota a prática do futebol misto na Educação Física, mas ainda assim sofreu preconceito por gostar de um esporte majoritariamente masculino.
– Os meninos com quem eu jogava na escola até me aceitavam, porque eu jogava bem e ajudava o time. Mas sempre atrelavam o fato de eu gostar de futebol com a minha sexualidade, com comentários ofensivos. Me chamavam de menina macho e me criticavam por eu só andar com meninos. Esse preconceito está enraizado na nossa sociedade e conectado com vários outros.