
Por Larissa Oliveira
A bandeirinha alagoana Raquel Barbosa, 29 anos, ficou conhecida após uma foto sua cercada por jogadores homens tentando a intimidar viralizar nas redes sociais. Raquel estava em campo no jogo do CSA contra o Murici. A cena virou um símbolo do machismo que persegue a presença feminina em campos. Quatro meses depois, a bandeirinha minimiza o assédio:
– Eles estavam contestando a minha decisão de confirmar um gol do time rival, o que faria o time ganhar o jogo. Entendi a situação deles. Não foram grosseiros comigo, mas ficaram insistindo por achar que teve uma falta no lance. As pessoas têm esse costume de protestar a decisão do árbitro com insistência. Eu sei o que eu decidi, é meu trabalho. Estou acostumada com isso e acho que o que gerou maior impacto nas pessoas foi a minha reação na foto de permanecer imóvel e calma. Não tinha o que ser feito, não ia voltar atrás no que eu decidi, não ia demonstrar estar assustado – disse Raquel
A cena de Raquel que viralizou nas redes sociais é uma exceção à regra. Árbitras, bandeirinhas e jogadoras de futebol têm pouco espaço na mídia. Nos campeonatos femininos poucos jogos são exibidos pela TV, o que torna ainda mais difícil a expansão dessa modalidade pelo mundo. Faltam campeonatos e clubes interessados em expandi-lo.

Mesmo nos dias de hoje as poucas mulheres que entram no mundo do futebol iniciam muito mais tarde do que os homens. Em todas as vezes que as duas modalidades entram em comparação, o futebol feminino sai prejudicado. O futebol feminino pode sim ter as mesmas dimensões do masculino, mas são coisas diferentes e não tem como comparar. É isso o que pensa a bandeirinha.
O futebol feminino não sofre só com baixos salários para as atletas, mas a falta de interesse das marcas em investir na modalidade, falta de estrutura das equipes de base, falta de profissionalização da categoria. O campeonato brasileiro de futebol feminino rende prejuízo, eventos vazios e pouco interesse do público.
A Uefa incentivou a modalidade feminina e trouxe mais mulheres para os cargos de gestão no futebol. A Conmebol também fez a sua parte e decidiu que todas as equipes masculinas são obrigadas a ter uma equipe feminina ou podem ser impedidos de participar da Copa Sul-Americana e da Libertadores.
Outro fator que faz diferença é a torcida que é responsável por fazer o time ter as dimensões que tem e ficar conhecido dentro e fora do país. Enquanto se espera uma torcida feminina preenchendo as arquibancadas, se percebe a ausência de mulheres até como espectadoras, enquanto o estádio para um jogo masculino costuma lotar um estádio. E como uma mulher pode jogar nas mesmas condições de um homem se ela foi proibida de jogar bola por mais de 30 anos? Se esse sentimento, que é cultural, não faz parte da vida delas?
– Depois do jogo o responsável me ligou para se desculpar por ter sido rude comigo. Eu não tenho nenhum problema com isso ou com ele. Eu não acho que isso possa ser encarado de uma maneira machista já que os meninos sempre me respeitam, eu entendo que numa situação de jogo os nervos ficam a flor da pele – completou Raquel
Raquel afirma que sempre é questionada a respeito de machismo, mas ela discorda e completa que nesse caso específico não foi. Isso não muda o fato de ser um universo masculino e as mulheres ainda terem dificuldades de conquistar o seu espaço.
– Muitos não estão preparados para a presença feminina dentro e fora de campo, alguns não aceitam receber críticas de mulheres, duvidam que a gente tenha a mesma capacidade de falar sobre isso pois acham que entendemos menos e na verdade nós podemos entender tanto quanto qualquer outro homem – disse Raquel
Menino joga bola e menina faz balé, diz torcedora fanática Flamengo
A torcedora Rebeca Almeida, 23 anos, que vive viajando atrás do seu time do coração já passou pelo mesmo e um pouco mais. ‘’Na minha casa nunca foi um problema o consumo do futebol, mas para muita gente não é assim. É normal que a paixão pelo futebol passe de pai para filho, dia de estádio é possível ver muitas crianças lá emocionadas com coisas que o pai sempre passou para elas. Mas é raro ver meninas. Eu vejo muito pai e filho.’’
Rebeca assume as dificuldades de viver do futebol e para ele. Os assédios nos estádios são constantes e as pessoas ainda tem dificuldade de aceitar uma mulher na arquibancada. Ela diz que as pessoas costumam dizer que mulher não entende de futebol e não abrem espaço para que algumas entendam ou tenham interesse.
Está muito enraizado na gente: menina faz balé, menino joga bola e a gente precisa mudar isso. Eu fiz jornalismo por causa do futebol e só depois, no mercado, eu descobri como é difícil a inserção nesse meio. As pessoas não aceitam que você pode sim ser mulher e você pode entender de futebol – disse Rebeca
A modalidade feminina não é consumida e nem comercializada, nem mesmo por mulheres. É muito difícil despertar o interesse de mulheres e principalmente de homens. A parcela da população que gosta desse tipo de futebol é muito pequena.
– Você vai em um jogo feminino no estádio e vê: não tem quase ninguém nas arquibancadas, não existe torcida organizada, não tem camisas com o nome das jogadoras, nada. Mas quando você chega num jogo comum de futebol masculino a diferença é nítida, o estádio está sempre lotado, as pessoas brigando pelos seus times, atletas bem preparados – disse Rebeca
Futebol é cultural mas você só aprende a gostar de uma coisa que alguém te mostra desde quando você é pequeno e te permite acreditar que é normal e que está tudo bem você gostar disso e não de outra coisa. A maneira como as mulheres são criadas influencia nisso. Mas nem por isso elas permitem o preconceito falar mais alto, Rebeca reforça isso. ‘’Enquanto as mulheres estão muitas das vezes jogando de graça, fazendo futebol só por amor, não estão sendo reconhecidas e nem preparadas, o que dificulta ainda mais delas se tornarem jogadoras profissionais, os homens nem sempre são bons jogadores, mas estão levando o hobby a sério e ficando ricos, as pessoas investem, pagam para ver eles se desenvolverem e ainda consegue se divertir com isso’’.
Cerca de 10% de um estádio cheio é de mulheres, o espaço vem sendo ocupado aos poucos. ‘’A gente precisa conquistar o nosso espaço e dizer para o que viemos. É preciso questionar: mas porque eu não posso? ’’ Rebeca acredita que precisamos andar de mãos dadas para essa conquista se realizar, dentro e fora de campo.
Mulheres precisam começar a ser tratadas de igual para igual. A menina que não joga bola pois precisa fazer balé está perdendo uma chance de conhecer um âmbito novo como eu conheci. Essa paixão só vira consumo quando você ensina que aquilo é legal, mas é mais legal ainda quando você vê mulheres fazendo aquilo e você se sente capaz de também ser o que você quiser – disse Rebeca