Por Ana Clara Andrade
Constância Garcia e Carolina Oliveira, duas jornalistas que trabalham diariamente com o esporte, descrevem a rotina dentro do universo esportivo como complicada e desafiadora. Isso porque precisam provar o tempo todo que merecem estar ali. Um dos principais motivos para isso acontecer é o machismo, presente diariamente na vida das mulheres.
Com apenas 27 anos, Constância já trabalhou como repórter no Grupo Bandeirantes de Comunicação e no Balanço Esportivo. Atualmente, trabalha no jornal O Globo. De acordo com ela, a experiência de trabalhar em um ambiente predominante masculino é uma luta diária:
– Lidar com o machismo no esporte é algo que já está no sangue de qualquer jornalista. O mais complicado disso tudo é ter que provar constantemente que você não está dentro de um estádio porque é mulher de alguém. Ter que provar que você sabe e entende aquilo que está cobrindo. É um desgaste diário. Mas, apesar de tudo isso, é uma experiência muito gratificante. Conquistar nosso lugar, aos poucos, é extraordinário. Ser reconhecida pelos jogadores, pelos treinadores, virar fonte para outros colegas, tudo isso é muito importante – enfatiza a jornalista.
Carolina, por exemplo, passou por uma situação em que o machismo fez com sua capacidade de conseguir uma boa história fosse colocada em dúvida. A jornalista tem 33 anos e atualmente é repórter freelance, mas trabalhou por sete anos como repórter do jornal “O Globo”:
– Aconteceu comigo em uma história no Maracanã, em janeiro de 2017. Acho que foi a vez que o machismo ficou mais claro para mim, de forma forte. Eu entrei sozinha no Maracanã e, enfim, ele estava destruído depois das Olímpiadas, estava todo quebrado. Eu mostrei o Maracanã abandonado por causa de uma briga do governo do Estado. No dia seguinte que a matéria saiu, acho que no dia 5 ou 6 de janeiro, eu recebi várias mensagens me parabenizando pela matéria e muita gente perguntando o que eu tinha feito para conseguir aquela história, vários homens que trabalhavam como repórter e que não tinham tido a história que eu tinha – lembra Carolina.
Carolina conta que, durante sua carreira, passou por algumas situações constrangedoras, em que sofreu assédio de técnicos, jogadores, torcedores e até mesmo de colegas de trabalho:
– Eu trabalhei em Política, em Cidade, mas o assédio dentro do esporte é pior. Eu cobria muito torcida organizada, então eu acabava ficando no meio de muita briga, muita confusão. Já tentaram me beijar duas vezes no São Januário. Estava fazendo uma matéria de torcida e o policial foi horrível comigo. Eu até fiz uma matéria sobre isso no Globo. Cheguei a publicar um artigo em primeira pessoa porque aconteceu em dois jogos seguidos. E tem a coisa do assédio sutil, né? Que você às vezes demora a identificar. Você acha ou tenta acreditar que foi só uma brincadeira, mas na verdade é um assédio. Não conheço nenhuma repórter que nunca tenha passado por isso – relata a jornalista.
Na opinião de Constância, não existe um roteiro diferente para as mulheres durante a cobertura de uma partida:
– Não acredito que a mulher tenha que seguir uma cartilha profissional a partir do momento que pisa no gramado para acompanhar algum jogo. Mas, mesmo que sem querer, a gente acaba se camuflando, para nos tornarmos “iguais” aos homens que dividem o trabalho conosco. Ainda são poucas as mulheres que trabalham com esporte e, para passar de maneira discreta, a gente acaba se tornando um “menino”. Falamos como eles e nosso uniforme de trabalho vira um par de tênis e calça jeans. Decote? Jamais! Saia ou vestido, muito menos – explica.
Já para Carolina, ainda existem alguns paradigmas a serem seguidos, apesar de termos tido uma grande evolução desde alguns anos atrás:
– Quando eu comecei, lá trás, tinha essa coisa de que vestido não é roupa para ir para treino. Sempre fui com vestido. Óbvio que vestidos apropriados para trabalhar. No Rio de Janeiro faz 40 graus no verão, e você tendo que ir para o Moça Bonita. Por que você vai botar uma calça jeans se pode usar um vestido? No meu caso não tinha problema porque eu não tinha uniforme nem nada disso, já que eu não era da TV. Mesmo assim, você sempre pensa, sabe? Eu tinha duas roupas aqui que eu usava, que eram minhas roupas de estádio. Eram vestidos compridos, que pareciam camisetões, que tinham bolso que dava para guardar o celular e a credencial. Como eu fazia muita torcida, então eu tinha que ficar guardando e tirando o crachá para não ser reconhecida. – conta a jornalista.
Ela acrescenta:
– Eu acho que hoje em dia já não tem mais tanto esse problema. Decote é uma coisa que não se usa em um ambiente de trabalho. Do mesmo jeito que homens não usam regatas, talvez, se fizesse uma comparação. Mas sim, um vestido mais justo ou uma roupa mais curta já é motivo para os colegas falarem.

Com todas as experiências adquiridas durante esses anos, Constância e Carolina ainda enfrentam o machismo a cada história que conseguem, a cada reportagem que fazem e a cada jogo que narram. Carolina, por fim, conseguiu fazer um resumo de como é ser uma jornalista dentro de um mundo que ainda tem tão pouco espaço para as mulheres:
– O preconceito, o machismo também está no colega que duvida da sua capacidade, no seu chefe que diz que vai te mandar para treino porque você é bonitinha e “você está de vestido, então pode ser que você descubra uma história”. Isso que é o que eu acho que mais bota para baixo, essa dúvida sobre a capacidade. A gente tem que estar pronta para responder, por exemplo, para explicar a regra do impedimento ou para dizer “olha não vou te responder, você está sendo machista, você pergunta isso para um homem que cobre futebol?” Os homens não estão prontos para responder.
Carolina complementa:
– Acho também que a gente fica com muito medo de dizer que gosta e entende de futebol, porque os homens acham que você entende, logo você é a mulher ideal e é para o desejo dele. Você gostar de futebol traz pura satisfação sexual para um homem, isso é muito bizarro, mas acontece muito.

Para Tadeu Aguiar, ex- editor adjunto do jornal O Globo, o papel da mulher na sociedade e no esporte teve uma grande evolução nos últimos 30 anos:
“Vivemos em uma sociedade machista e o esporte não foge à regra. A presença de mulheres no esporte aumentou muito, tanto competindo quanto na cobertura jornalística. Já vemos hoje mulheres em reportagens, em comentários de futebol e até de arbitragem. É um processo. Não faz muito tempo que as mulheres sequer votavam. ” – comenta o jornalista.
Tadeu tem 62 anos e um currículo extenso. Começou como estagiário no Jornal dos Sports e trabalhou como repórter em grandes jornais, como O Dia, Jornal do Brasil, além da revista Placar. Durante sua carreira, cobriu sete Copas do Mundo: duas como repórter e cinco como chefe de equipe.
Entretanto, durante seus 40 anos de profissão, Tadeu teve um privilégio que Carolina e Constância não tiveram: ele nunca passou por uma situação constrangedora no trabalho devido ao seu sexo.