Proposta para diminuição de campo e gol mitiga falta de investimento na base

Por Helena Carmona e Pyetra Santos

Durante toda a temporada, o 1,67 metro de Renata Maria Sant’anna compete com os 2,44 metros de altura do gol que defende. Mas a maior dificuldade que a goleira do Flamengo/Marinha enfrentou ao longo da carreira foi a falta de oportunidades. Renata, conhecida nos gramados como Kaká, só ingressou em uma escolinha de futebol aos 15 anos e apenas aos 22 começou a jogar campeonatos oficiais. Para ela, o início tardio é o principal empecilho do sucesso do futebol feminino, e não a manutenção de tamanhos iguais para campo e gol nas modalidades de ambos os sexos.

Técnico do Flamengo/Marinha desde 2016, Ricardo Abrantes, disse que é uma questão de estrutura, onde os meninos começam a jogar muito mais cedo, enquanto a maioria das meninas só começa a jogar com 13, 14 anos.

— Elas perdem um período de preparação e, quando começam a treinar, treinam uma ou duas vezes por semana, enquanto um garoto de 13 anos já está treinando todos os dias da semana. Nosso time tem uma rotina de treinos adequada e isso fica evidente porque a nossa goleira, a Kaká, não tem a altura dos goleiros homens e nem por isso deixa de defender bem — reforça Abrantes.

Kaká nunca teve problemas com as regras impostas às mulheres, que praticamente são as mesmas usadas no futebol masculino:

— Não faz diferença diminuir a trave. Nós trabalhamos para buscar o melhor posicionamento dentro do gol. Conseguimos dividir as dimensões, o que acaba facilitando. No meu ponto de vista o gol tem que ser do mesmo tamanho. Os críticos sempre têm o que dizer, que o feminino é isso e aquilo. Não deve haver comparação quando se quer apoiar. Quando alguém não quer apoiar o futebol feminino é que começam as comparações e isso acontece em qualquer modalidade quando há preconceito — afirma ela.

Olimpíada 2016

A Olimpíada do Rio fez ressurgir, em 2016, o debate acerca das dimensões utilizadas para prática do futebol feminino, e o assunto voltou aos blogs esportivos de opinião às vésperas da Copa do Mundo Feminina deste ano. Nos Jogos Olímpicos, as goleiras sofreram muitos frangos ao longo da competição e  alguns telespectadores afirmaram ser “sem graça” assistir aos jogos femininos pela suposta facilidade em marcar gols.

A revista “Época” fez, então, uma reportagem investigando a questão e chegou à conclusão de que o problema vem da base. Poucas meninas são treinadas para se tornarem goleiras, atuando de forma fixa na posição somente a partir dos 17 anos; e ainda assim, não costumam ter a rotina de treinos e nem a instrução técnica necessária. Existem poucos preparadores de goleiros com experiência em treinar mulheres e, com isso, não atendem suas necessidades. Ricardo Abrantes, técnico do Flamengo/Marinha, reforça:

— É uma questão de estrutura. Os meninos começam a jogar muito mais cedo. Hoje você vai numa escolinha e vê meninas de 4 anos jogando bola. Só que a maioria das meninas só começa a jogar com 13, 14 anos. Elas perdem um período de preparação e, quando começam, treinam uma ou duas vezes por semana, enquanto um garoto de 13 anos já está treinando todos os dias da semana — reforça Abrantes.

À época dos Jogos Olímpicos, foi o jornalista Mauro César Pereira quem levantou a discussão sobre a diminuição do gol. Apesar da aposta de que essa mudança traria uma melhora às defesas, a goleira da China nas Olimpíadas, Lina Zhao, de 1,88 metro, levou um frango e provou que o problema não é o tamanho do gol, mas sim a falta de investimento. Ela é seis centímetros mais alta que Iker Casillas, goleiro ganhador de três Liga dos Campeões da UEFA pelo Real Madrid e da Copa do Mundo de 2010. Para Abrantes é uma questão de adaptação e treino.

— O futebol feminino está tempos atrás [do masculino]. Os goleiros de 1980 também eram mais baixos. E, hoje, nós também temos goleiras altas. É uma questão de adaptação, isso é normal e vai acontecer em todos os esportes. É mesmo uma questão de treino. O Campeonato Brasileiro Feminino já está aí há vários anos e isso seria um retrocesso. — defende.

No dia 1° de maio, o Flamengo/Marinha enfrentou o Sport pela sétima rodada da Série A1 do Campeonato Brasileiro Feminino, na Gávea. O time de Recife sofreu uma goleada de 6 a 0 – o que já é rotina. No início do ano, acusando crise financeira, o Sport dispensou todas as atletas e só voltou atrás de última hora, a pedido da CBF. Até a sétima rodada, o Sport não havia marcado nenhum gol e nem pontuado no campeonato. A falta de preparo físico da equipe recifense fica evidente a cada jogo. Ao lado das atletas do Flamengo/Marinha, essa diferença salta aos olhos: as visitantes são menores, mais magras e mais lentas.

O argumento a favor

Defensores da alteração nas dimensões de campo e bola se baseiam na experiência de outras modalidades. No basquete, para o jogo masculino, a bola tem 74,9 centímetros de circunferência e pesa 623 gramas. Já para as mulheres, ela tem 72,3 centímetros e 566 gramas. O fundamento utilizado é que a mão das mulheres é menor e, por isso, seria mais difícil dominar uma bola maior e mais pesada. No vôlei a rede também possui alteração: para os homens ela tem 2,43 metros e para as mulheres, 2,24 metros.

Atualmente, o campo de futebol tem cerca de 105 metros de comprimento e 68 metros de largura, e a trave tem cerca de 7,32 metros de comprimento e 2,44 metros de altura, como o padronizado pela CBF em 2016. Isso equivale para o futebol feminino e masculino. No entanto, no livro de regras de arbitragem do comentarista e ex-árbitro Sálvio Spínola, consta que alterações são permitidas para partida de mulheres, deficientes físicos, menores de 16 anos e maiores de 35. O debate chegou a ser criado pela direção da FIFA e engavetado algumas vezes, contudo, essa alteração foi descartada a partir da  divulgação do relatório técnico do mundial sub-20 feminino de 2016, que destacava a evolução das jogadoras, afirma Marcel Rizzo em seu blog.

A diferença física entre homens e mulheres

Saulo de Almeida é preparador físico do clube de Kaká e atua no time desde 2014. Ele já foi auxiliar no futebol masculino do Botafogo e por isso conhece as especificidades de cada um dos gêneros. Ele acredita que existam diferenças físicas entre homens e mulheres, mas que a possíveis modificações nas dimensões não interfeririam nessas desigualdades.

— É claro que existe uma diferença física entre homens e mulheres, na questão de força e velocidade, mas as dimensões do campo em si não interferem nisso. Os meninos tiveram mais oportunidades pelas categorias de base que muitas meninas não tiveram. Então vemos essa diferença, com um trabalho um pouco mais forte, até elas atingirem o lastro de jogadora profissional. Mas não é muito diferente do masculino, até porque as valências físicas do jogo são as mesmas — declara ele.

Tanto para Saulo quanto para o técnico Abrantes, essas diferenças podem ser praticamente anuladas com a preparação física e técnica das jogadoras. Um ponto destacado é a falha nas escolinhas de futebol de base em não investirem nas jogadoras e tratar o futebol feminino apenas como um hobbie. Kaká também defende que o treinamento e o investimento é que diminuirá as desigualdades e não as dimensões.

— Não trabalhamos essa diferença em relação a homens e mulheres, todas precisam de treinamento de acordo com a sua especificidade dentro do jogo. Dentro do treino a atleta vai fazer os mesmos exercícios que o atleta masculino sem problema nenhum. A quantidade de repetições vai depender de quem é a pessoa: uma mulher pode ser capaz de realizar dez tiros de velocidade, enquanto um homem mais veloz que ela só é capaz de realizar oito, por exemplo. — diz Saulo.

Diminuir o campo é deixar o jogo apertado

Ao contrário de Kaká, Rayanne ingressou na escolinha de futebol ainda quando criança. Aos 8 anos ela iniciou sua caminhada para se tornar uma jogadora de futebol e hoje, aos 24 anos, é lateral do Flamengo e já foi convocada para fazer testes pela Seleção Brasileira. Ela é filha de jogador de futebol e por isso entrou tão cedo no mundo da bola. A futebolista também é contra a diminuição das dimensões no futebol feminino.

— Isso deixaria o jogo muito apertado. O ataque e a defesa ficariam muito próximos e prejudicaria mais quem precisa correr mais, buscar o jogo lá do fundo, como eu que sou lateral. Acho que independente de diminuir campo, bola e gol, não vai fazer diferença. O que faz diferença é quem está de fora querer apoiar o esporte. — afirma.

Apesar de ainda existir a  pouca valorização do futebol feminino, o cenário está mudando. Em 1945, durante o governo Vargas, foi assinado o Decreto de Lei 3199, que proibia a mulher de jogar esportes que “não condizem com sua natureza física”, o que incluía o futebol. A prática feminina só deixou de ser proibida em 1979 e de lá para cá, algumas transformações impulsionaram o esporte, mas o cenário ainda está longe do ideal.

Decisão da CBF deve aumentar investimentos

Para a temporada de 2019, a CBF exigiu que todos os times da Série A do Campeonato Brasileiro Masculino tivessem um time feminino como forma de motivar o crescimento da área. Os times que jogam a Série B tem até 2020. Além disso, a Copa do Mundo Feminina de 2019 é a primeira a ser transmitida no Brasil pela TV aberta, depois de sete edições que passaram em branco para muitos. Para os profissionais da área, essas iniciativas trazem esperança.

— Agora que, para os times da Série A, é obrigatório ter um time feminino o mercado está se abrindo e as mulheres estão ocupando esse espaço. Há algum tempo ser jogadora de futebol era motivo de vergonha. Estamos atrás, mas estamos acelerando para alcançar o futebol masculino, até em relação a público. Está melhorando, com a Copa do Mundo esse ano que vai ser transmitida pela TV… A igualdade está acontecendo. — comemora Abrantes.

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