Futebol feminino dribla obstáculos e atrai mercado

Por Henrique Oliveira

Para Renata Mendonça, uma das idealizadoras do Dibradoras, projeto considerado como a principal voz das mulheres em todas as áreas do esporte no Brasil, o futebol feminino ganhou maior notoriedade a partir do momento em que o mercado decidiu se comunicar diretamente com a mulher. Desta forma, segundo a jornalista, o futebol feminino deixou de ser mero coadjuvante de negócios para se tornar protagonista de seu próprio mercado.

De encontro com essa nova visão, uma pesquisa da Deloitte Sports Business Group concluiu que até a Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2023 a diferença entre patrocinadores dos principais clubes do mundo será completa, se comparado aos respectivos na modalidade masculina. Hoje, essa disparidade é de 60%. Tais resultados se referem aos dados da temporada 2018/19 e ilustram a tendência de separação de acordos comerciais entre os clubes.

– O mercado publicitário está numa mudança, ele percebeu que precisa falar com mulheres e ele também precisa ressaltar o protagonismo de mulheres. Isso tem sido visto de algumas marcas mais recentemente. Então, a gente tem visto umas marcas esportivas se associando a algumas jogadoras. É meio um movimento incipiente aqui no Brasil – destaca.

A jornalista destacou também a postura da Nike em lançar camisas oficiais de todas as seleções femininas nas quais ela patrocina. A marca hoje é uma das principais parceiras do futebol feminino. Para a profissional, atualmente ocorre uma transformação na forma de se comunicar com a mulher a qual ressalta o protagonismo feminino, fruto dessa mudança.

Especialista em Marketing Esportivo, Erich Beting acredita que o futebol feminino precisa superar as disparidades técnicas entre os times e os países para chegar num modelo ideal para os negócios. Segundo ele, antes, a modalidade não gerava lucro, somente despesas. Beting entende que foram os movimentos de massificação do começo da década a fonte de inspiração para as entidades esportivas as quais viram aquele como o momento certo para investir na modalidade.

 – Vejo que, em questão de uns 10 anos, teremos cada vez mais o futebol feminino na programação da mídia e consolidando-se como um dos principais esportes do mundo – prevê.

Essa mudança na forma com a qual o mercado passou a ver a mulher é resultado de um histórico de lutas sobre o protagonismo da mulher no mundo, mais precisamente a onda feminista de 2015. No entanto, o “boom” do clamor popular instrumentalizado pela internet fez com que o mercado passasse a considerar a mulher como uma consumidora em potencial, o resultado disso foi o aumento dos investimentos no branding feminino. A partir daquele ponto a forma de se comunicar com a mulher e para a mulher já não era mais a mesma.

– [Antes] Você via que quando se utilizava as mulheres numa propaganda geralmente era relacionado à beleza/limpeza ou era relacionado a usar as mulheres para atrair os homens, como as propagandas de cerveja com mulheres gostosas seminuas – afirma a jornalista.

Público crescente

O ano da nova onda das manifestações feministas foi o mesmo no qual acontecia a sétima edição do torneio mundial feminino. Junto do movimento, a mídia, que antes praticamente ignorava ou fazia pouco caso para a modalidade feminina, passou a assumir um novo comportamento. É o que se pode falar dos casos de assédio, por exemplo. Se antes eram tratados como motivos de piada, agora são plenamente repudiados. O que se entende é que a mudança de comportamento da mídia se ligou a campanha de empoderamento feminino.

De acordo com o Kantar Ibope, a transmissão das Olimpíadas de 2016, teve o futebol feminino como uma das cinco maiores audiências de todo o evento. Em dados comparativos, de acordo com o mesmo instituto, a partida contra França que marcou a despedida da seleção brasileira no mundial em 2019, atingiu 37 pontos de audiência. Beting acredita que o futebol feminino ampliará ainda mais sua popularidade, mas não movimentará o mercado tanto quanto a modalidade masculina.

– O [futebol] feminino está agora ganhando seu espaço, conquistando o público e se tornando maior. Assim, ainda haverá um desequilíbrio na geração de receitas. Mas a tendência é, aos poucos, ela reduzir. Só não dá para achar que os dois esportes vão gerar o mesmo volume de dinheiro. Nenhuma outra modalidade esportiva chega próxima ao futebol masculino em movimentação financeira – conclui.

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